Conversa de Botequim

Uma visão desfocada da realidade do mundo

Ponto Final

Posted by José Eduardo Coutelle em 3 setembro, 2009

No ano passado, escrevi uma reportagem sobre suicídio para a revista Primeira Impressão, produzida pela cadeira de Projeto Experimental em Revista, e orientada pela professora Thaís Furtado (para ver a versão original da revista clique aqui). Este texto renasce devido e sua reedição, com intuito de concorrer ao prêmio de melhor Reportagem Impressa, no SET da PUC. Sem mais delongas, vamos a ele.

Ponto Final

Quando você terminar de ler este parágrafo, mais uma pessoa terá cometido suicídio. A cada 40 segundos, em algum lugar do planeta, segundo a Organização Mundial de Saúde, um indivíduo tira sua própria vida

Dor, sofrimento, solidão. Não é fácil descrever os sentimentos de um suicida. O isolamento total, a repugnância pela sociedade, o descaso pela vida. A ausência de um sentido. Porque continuar representando um personagem que acorda, toma café, trabalha, almoça, trabalha novamente, volta pra casa e dorme? De forma racional, percebe-se que a existência humana é desprovida de sentido. Então, porque continuar existindo? Talvez o medo da dor, ou ainda o medo de sentir medo da dor. Algo abstrato. Ou seria o medo do depois, do além, de um julgamento divino?

Existem vários exemplos de suicídios em todos os períodos da história humana. Alguns senadores romanos que contrariavam a vontade de Nero eram “convidados” a suicidarem-se. Caso contrário, eram apedrejados em praça pública. Os kamikazes japoneses, que entregavam a sua vida em devoção ao seu imperador, e os samurais, que realizavam o seppuku, ou seja, abriam suas próprias entranhas com espadas para reconquistar a honra, são outros exemplos. Por fim, atualmente homens-bomba prendem-se a um cinturão de dinamite e explodem em lugares públicos. São pessoas que tiram sua própria vida por um ideal. No mundo ocidental moderno, no entanto, as pessoas se matam por uma falta total de objetivos.

O fato é que o suicídio é um mal que assola a sociedade devido ao seu modo de vida superficial e vazio. As pessoas são valoradas pelo que têm e não pelo que são. Toda essa obsessão de aparência, de poder aquisitivo, faz com que o verdadeiro sentido da vida fique obscuro. E é exatamente neste ponto que os jovens sofrem mais, por não se encaixarem neste mundo desregulado. “A cultura às vezes faz o papel de se antecipar a nós, de nos dizer onde encontrar a felicidade. Ela cria arquétipos de seres-humanos felizes e totalmente falsos. Uma pessoa pobre de mundo, que não tem consciência crítica, cria de televisão, obviamente vai estar muito mais exposta a esses arquétipos e, quando não consegue alcançá-los, começa todo o dilema “, explica o professor de filosofia da Unisinos Eduardo da Silva Pereira.

“O suicida acaba fazendo uma crítica radical à sociedade”, afirma o psicanalista, membro da Associação Psicanalítica de Porto Alegre (Appoa), Mário Corso. Questionar o sistema é uma coisa natural. O problema é não refletir sobre ele e viver na alienação. Contudo, tirar a própria vida não resolve nada. Não se muda o mundo suicidando-se. “É uma saída covarde, ou melhor, não é uma saída. É fugir da questão. O suicida é fruto dessa sociedade. É um revolucionário que não propõe nada”, completa Corso.

A maior parte dos suicídios é composta por pessoas deslocadas, que não possuem vínculos, não tem lugar na turma, no trabalho, não tem namorada, diz o psicanalista. Esse isolamento pode ser causado devido à incapacidade do indivíduo manter relações humanas. “Uma experiência importante para uma pessoa é ela sentir que faz falta, é experimentar ser amada por alguém. É muito mais difícil você se deixar ser amado do que amar. Porque amar é involuntário. Não se escolhe quem se ama. Para se permitir ser amado por outra pessoa é preciso gostar de si, pois, caso contrário, você se fechará para o amor do outro”, opina o professor Pereira.

Um dos principais fatores que levam uma pessoa a cometer o suicídio é o seu grau de isolamento. Corso conta que existem algumas pesquisas que descobriram que, se uma pessoa tenta suicidar-se e um profissional da área da saúde é informado e dá atenção a ela, as chances do ato se concretizar são pequenas. “Não é preciso visitá-lo, nem fazer consulta, nem dar remédio. Apenas perguntar: você está vivo? Só mostrar o interesse já tem uma eficácia enorme. É incrível. É a oferta de alguém poder fazer algo, mesmo que não faça”, complementa.

Conexões perigosas

Centenas de pessoas, principalmente adolescentes, navegam nas águas turvas da internet procurando respostas para seus dilemas existenciais. Blogs, fóruns, e sites de relacionamentos como o Orkut propõe debates sobre suicídio. Alguns criam discussões e outros incitam ou pelo menos apresentam formas de como executar o suicídio sem dor. Mário Corso vê a internet como uma ferramenta muito perigosa neste caso. Ele acredita que todas as pessoas devem encontrar a sua tribo, mas não a tribo dos suicidas. “Como essas pessoas podem dar opiniões sobre o valor da vida, se elas mesmas estão se questionando? Eu não acho que um adolescente frágil e desesperado deva discutir com outros adolescentes frágeis e desesperados”, enfatiza ele.

Na comunidade do Orkut “Já pensei em suicídio”, foram postadas as mais diversas respostas para se continuar vivendo. “Não quero ir para o inferno. Quero mesmo é ir pro céu e ter uma vida sossegada”; “Quero morrer sem sentir nada”; “Só não tentei novamente porque tenho medo de não dar certo e ficar com sequelas”; “Prefiro ver todos da minha família morrerem e sentir eu sozinho a dor da perda do que fazê-los sofrerem por minha causa”, são alguns dos relatos dos usuários.
Para o professor Pereira, a dúvida em matar-se ou não leva a pessoa a questionar se a vida tem algum valor intrínseco. “Existe de fato a dignidade humana? Nossa existência se resume a essa vida temporal? Tudo isso são dilemas que fazem com que muitos hesitem antes de se matar”, explica o professor. Para o psicanalista Mário Corso, a discussão sobre o suicídio é uma filosofia barata para esses jovens. “É uma discussão importante saber se vale ou não vale a pena viver e quais razões a gente não teria para continuar vivendo. Só que ela é rebaixada, por pessoas que estão perturbadas, a matar-se ou não”, conta Corso.

Alguns adolescentes levantam a questão de que o suicídio é o preço que a sociedade humana paga pela conquista do livre-arbítrio, da racionalização, daquilo que nos distingue dos nossos antepassados símios. Seria a expressão máxima de liberdade tirar a sua própria vida. Para o professor Pereira, é difícil se falar em liberdade dissociada de realização humana. Em geral, se poderia dizer que, na verdade, é uma possibilidade e não uma liberdade. “Tu podes te matar, mas não significa que faças isso livremente. Porque a liberdade está associada ao “eu autêntico”, a uma realização humana, a um sentido e a um propósito. Em geral, ninguém se mata por estar feliz”, afirma o professor. “Eu não vejo o suicídio como uma coisa racional, mas sim como uma fuga. Porque a racionalidade te levaria a soluções. Te levaria, inclusive, a perceber que os teus argumentos são falhos”, conclui ele.

A literatura está repleta de exemplos sobre essa questão. Talvez o personagem mais excêntrico, racional e doentio já criado seja Kirilov, do romance Os Demônios, de Dostoievski. Para ele, a vida é nada mais que dor e medo, e continuar vivendo é indiferente. “Aquele que se matar apenas para matar o medo imediatamente se tornará Deus”, diz ele. A literatura romântica também influenciou pessoas a cometerem o suicídio no século XVIII. Os Sofrimentos do jovem Werther, clássico do romancista e escritor alemão Johann Wolfgang von Goethe, foi acusado de causar uma onda de suicídios na Europa. Na história, Werther se mata por não conseguir ficar ao lado de sua amada. Hamlet, personagem de William Shakespeare, também vivenciou a dúvida do suicídio no diálogo “ser ou não ser, eis a questão”.

A função da fé

Karl Marx já dizia que a religião é o ópio do povo. Pode até ser, mas quando o tema tratado é o suicídio ela dá uma sustentação moral para as pessoas. A religião tenta de fato dar um sentido para a existência. De modo geral, o suicídio é condenado por todos os credos. O budismo diz que a pessoa que se suicida vai para o reino dos infernos. “O inferno é na verdade um estado mental. A pessoa que se suicida, automaticamente, entra num estado de inferno, e depois é muito difícil voltar para a lucidez”, explica o morador do Templo Caminho do Meio, em Viamão, Henrique Lemos da Silva. Assim, de acordo com o budismo, ela pode ficar um longo tempo no reino dos infernos, até conseguir, por mérito, chegar a uma posição positiva que a permita encontrar um caminho e seguir novamente.

Para Tânia Maria Costa da Rosa, trabalhadora do Centro Espírita Fonte de Luz, de Santo Antônio da Patrulha, o suicida tem uma caminhada difícil após a morte. “O espírito do suicida vai permanecer interligado ao seu corpo físico durante o tempo que teria de vida na Terra, pré-estabelecido na encarnação. Caso cometa suicídio aos 40 anos, mas tenha de viver até os 90, ele entra num inferno mental de muito sofrimento, até cumprir o restante do tempo que deveria viver. Depois disso, ele é encaminhado para o vale dos suicidas e lá vai ter a oportunidade de uma nova reencarnação”, relata.

Conforme o Pastor Jaime Martins, da Igreja Adventista do Sétimo Dia, em Santo Antônio da Patrulha, não dá para saber ao certo o destino de um suicida. “Pois, mesmo no último momento, na hora da agonia da morte, a pessoa poderá ter oportunidade de pedir perdão, conforto e salvação para Deus. Não tem como saber quem é que aproveita esta oportunidade. O verdadeiro destino dos suicidas pertence somente a Deus”, diz o pastor. Segundo o padre da Igreja Católica Jair Peres de Pinho, da mesma cidade, o suicídio pode ser concebido como a perda da sensibilidade. “Naturalmente ninguém põe a mão no fogo e a deixa queimando.” Para ele, o suicida vai para um purgatório para purificar a sua alma. “São as próprias pessoas que se condenam através da consciência”, diz.

Mas será que o suicídio é uma característica desenvolvida unicamente pela espécie humana? São raros os animais que tiram a sua própria vida. Pelo contrário, eles têm um forte instinto de sobrevivência. Contudo, a ciência já comprovou a existência do suicídio no microcosmo. O fenômeno foi batizado como apoptose. Em grego arcaico, significa “o ato de cair”. Ele é caracterizado pelo suicídio celular programado, ou seja, a própria célula participa da sua destruição. Este processo é necessário para eliminar células supérfluas ou defeituosas, como ocorre durante a gestação humana quando os dedos das mãos são ligados por uma membrana. Questionado sobre a relação do suicídio entre a natureza e a espécie humana, o psicanalista Mário Corso é enfático. “Não é porque existe na natureza que vai existir um mecanismo particular na cultura. Não existe uma natureza humana. O ser humano não é um sujeito natural. Desde que o homem inventou a palavra, ele perdeu a natureza.” Assim, a grande incógnita da existência humana continuará indecifrável. Cada indivíduo terá seus próprios motivos para seguir ou não vivendo. E essa decisão continuará sendo individual e intransferível.

Box – Seitas religiosas e o suicídio em massa

Templo do Povo – Seita evangélica criada em 1955 nos EUA pelo norte-americano Jim Jones. Acusado de desviar fundos de seus fiéis, Jones emigrou com centenas deles para a Guiana Francesa. Em novembro de 1978, ele comandou um suicídio em massa de 909 seguidores.
Ramo Davidiano – O líder da seita nos EUA, David Koresh cometeu suicídio junto de mais 75 seguidores, provocando um incêndio no rancho onde se encontravam, próximo de Waco, no Texas, depois de resistir 51 dias a um cerco do FBI, em janeiro de 1993.
Ordem do Templo Solar – Constituída pelo belga Luc Jouret e pelo francês Joseph Di Mambro em 1984, a seita possui pouco mais de 400 seguidores no mundo, a maioria localizada na Suíça, no Canadá e na França. Em 1994, 48 membros suicidaram-se em um vilarejo na Suíça.
Portão do Céu – A seita foi fundada nos EUA em 1972 por Marshall Applewhite e Bonnie Nettles. Em março de 1997, Applewhite e mais 38 membros cometeram suicídio na casa onde moravam, na Califórnia. Eles acreditavam que o cometa Hale-Bopp os levaria para um planeta no qual uma forma superior de existência os aguardava.

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2 Respostas to “Ponto Final”

  1. Fabio (praia) said

    Ze Eduardo,estarei sozinho por aqui esta semana.Apareca.Venha preparado para passar a noite.Acomodacoes de sobra.O endereco e rua joao goulart n100.Ligue antes.Casa(36831713).Celular(99842219).

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