Conversa de Botequim

Uma visão desfocada da realidade do mundo

Acidentes

Posted by José Eduardo Coutelle em 13 julho, 2009

Foram cinco anos e meio pegando o ônibus praticamente todas as noites para a Unisinos e poucas coisas emocionantes aconteceram nesse período. Digamos que ser parado pela Polícia Rodoviária Estadual e ficar estacionado no acostamento da RS-118 não é um grande exemplo de “coisas emocionantes”. A fiscalização sempre nos parava nos dias de prova na Avenida Unisinos, só para deixar o momento mais tenso. Éramos sempre fisgados como peixes, e a fiscal, com seu tradicional batom vermelho, pedia todos os documentos para o Lauri’s Hamilton, o nosso motorista.

Agora, emoção mesmo aconteceu numa noite fria, no qual pairava uma leve brisa no ano retrasado. Já tínhamos vencido toda a FreeWay e a RS-118. Acabávamos de entrar no BR-116, próximo a cidade de Sapucaia. A noite estava fria, e havia um chuvisco intermitente. Aquele desgraçado chuvisco que só serve para incomodar o motorista, pois não há velocidade do limpador de pára-brisa que se encaixe. Foi nesse clima que aconteceu o ocorrido.

Já devia ser quase 7h da noite, e a maioria dos passageiros/estudantes estavam dormindo. A noite era escura. A pista estava movimentada e escorregadia. Vínhamos em alta-velocidade pela pista da esquerda. Acordei-me assustado com o barulho dos freios. Existem vários estágios do grito do freio, e só quem passou por um acidente, por mais banal que ele seja, reconhece. Primeiro, começa com o som tradicional do pneu raspando o chão. Depois de uns três segundos, o seu grito aumenta umas três oitavas, e torna-se assustador como um berro de javalis sendo comidos vivos por ursos. Nesse momento tu já sabes do inevitável. Na velocidade em que estávamos não pararíamos. Minha reação foi empurrar o banco da frente com os pés e proteger a cabeça com as mãos. A colisão era certa, e não sabia em que iríamos bater. Este segundo durou uma eternidade na minha cabeça. Sim, talvez o segundo mais longo da minha vida. Instantes depois, a pancada. Não sofri nada. Estava preparado para ela. Batemos a uma velocidade bem lenta. Os freios não suportaram a pista molhada.

O fato foi o seguinte. Um carro que seguia a mesma direção que nós na 116 deu sinal que dobraria a esquerda. O caminhão que vinha na nossa frente freou bruscamente e conseguiu parar. Nós não. Acertamos a traseira do caminhão, que depois viemos saber que era um caminhão que transportava combustível. Sim, combustível. Se batêssemos mais forte, e a colisão rompesse, de alguma forma, o tanque do caminhão, certamente no outro dia sairia uma nota na Zero Hora comentando o terrível acidente no qual vitimou cerca de 25 estudantes e um motorista. “Um rapaz não identificado, tentou quebrar a janela lateral do ônibus com o martelo que fica preso a ela, mas antes que conseguisse todo o ônibus já se encontrava em chamas. Motoristas disseram que a explosão se deu de forma muito rápida. ‘Vi um rapaz desesperado tentando salvar sua vida e de seus colegas. Sua expressão era horrível. Nunca vou esquecer aquele rosto’, disse Paulo Fernandes, motorista que presenciou o acidente.”

De fato, o estrago foi pequeno. O vidro da frente se rachou no meio. O pára-choque foi quem sofreu mais. Já os estudantes, poucos tiveram algum dano. A marca maior é psicológica. Nesses últimos meses nunca mais consegui dormir tranquilo na estrada. Quando o ônibus freava, sempre aguardava aquele som indistinguível e o choque. Contudo, nunca tivemos outra colisão assim. Eu, pessoalmente, fui vitimado devido a afobação do nosso motorista em outra ocasião. Mas isto já é outra história.

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2 Respostas to “Acidentes”

  1. Larieti said

    Guga, tudo bem?

    Gostei muito do teu texto.
    Comecei a lê-lo por curiosidade e, a medida que a descrição do acidente foi sendo feita, pensei: “Peraí, eu também estava lá!”

    É verdade, não me machuquei muito. Bati a boca no banco da frente… Nunca mais dormi tranquila em viagens de ônibus.
    E pensar que poderia ser pior…. era um caminhão de COMBUSTÍVEL.

    Não era a nossa hora de partir – Ainda bem!

    Abraço

    Lari

  2. José Eduardo Coutelle said

    Oi Lari… legal te ver por aqui. Estou me esforçando na dificil missão de atualizar o blog diarimante. Por enquanto estou conseguindo.

    Fique a vontade para comentar, e se quiser usar este espaço para fazer alguma colocação, sinta-se em casa. Afinal já tenho uns quatro leitores assíduos… hehe

    Até mais

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