Conversa de Botequim

Uma visão desfocada da realidade do mundo

Dormi de meias

Posted by José Eduardo Coutelle em 11 julho, 2009

Essa é uma história muito estranha. Era um sábado, e por algum motivo escuso não tinham me acordado para o almoço. Já era meia hora, e eu então resolvi me levantar para ir comer.

– Que coisa mais estranha. O que eu faço dormindo no quarto da minha irmã? E porque estou de meias? – pensei eu.

De fato, eu nunca dormi de meias na minha vida. Podia ser a noite mais fria que eu não colocava meias. Mas naquela noite eu dormi com elas, ou esqueci-me de tirá-las. Logo percebi que coisas estranhas iriam acontecer, ou tinham acontecido e eu não sabia.

Coloquei uma roupa e desci as escadas, indo em direção da cozinha. Meus avós estavam de visita. Minha mãe estava junto deles na mesa. Meu pai não se encontrava. Todos comiam uma sopa de ervilha, que quando cheguei já estava meio morna.

– Bom dia. Porque não me chamaste para o almoço mãe? – perguntei olhando para ela.

– Achei que não estaria com fome – ela respondeu.

Mas que estranho. Porque eu não estaria com fome? Sempre almoço, independente de como tenha sido a minha noite anterior. E por falar em noite anterior, passei todo o tempo tentando me lembrar de como tinha voltado para casa. Na sexta, cheguei da faculdade e fui direto tomar um uísque com uns amigos num bar. Estávamos bebendo direto na garrafa um litro de Nato Nobilis. Mas tava tudo legal. Não me lembro de ficar mal. Afinal, não me lembro de muita coisa.

Sorvi aquela sopa, e uma incrível dor de cabeça tomou conta de mim. Logo após o almoço, minha mãe me chamou para conversarmos em particular no quarto dela. Nunca é boa a coisa quando a tua mãe te chama para conversar em particular no seu quarto.

– Tu estás bem? – perguntou ela.

– Sim – respondi.

– O que aconteceu ontem à noite?

– Aconteceu nada – um silêncio mortal se apoderou do ambiente, e comecei a me preparar para perguntas mais constrangedoras.

– Me diz uma coisa. Onde está a chave do carro? – perguntou ela.

– Ora. Deve estar lá em baixo, no chaveiro junto com as outras.

– Não está.

– Vou ali ver então – Sai do quarto. Não agüentava mais aquela pressão. Afinal de contas, a chave tinha de estar no chaveiro. Mas eu nem lembrava como tinha voltado pra casa. De fato, no chaveiro ela não estava, e nem sobre os móveis de entrada da casa. Contudo achei a chave reserva. Peguei-a e fui até o carro, que estava na rua. Procurei por tudo dentro do carro e não achei. Olhei no porta-luvas e encontrei uma chave. Graças a Deus eu tinha uma chave. Sabia que não era a chave que estava procurando, mas era uma chave, e isso me bastava.

Fui até a minha mãe e mostrei-a.

– Tava dentro do porta-luvas mãe. Pronto – disse eu.

– Dentro do porta-luvas? E como conseguiste trancar o carro e colocar a chave dentro do porta-luvas? – perguntou ela.

Essa foi difícil. Ela me pegou de jeito. Nem o MacGyver ou o The Flash conseguiriam responder esta.

– Porque tu não começas a me dizer o que aconteceu ontem? Porque o carro estava torto na garagem? Porque havia panos de prato na rua? E aquele aguaceiro no sofá?

Simplesmente eu não tinha o que dizer. De fato, eu não sabia como tinha chegado em casa. Mas como dizer isso para tua mãe. Mas eu tinha de dizer alguma coisa, e não podia mentir. A mãe sempre sabe quando estamos mentindo, no momento que estamos conversando a meio metro de distância, e ela está olhando diretamente para os seus olhos. Não me restou o que fazer senão falar a verdade.

– Mãe, não sei como vim pra casa. Estava bebendo com uns amigos um uísque na frente do bar na Cidade Alta, e não me lembro de mais nada. Só sei que acordei no quarto da minha irmã, deitado de meias.

Pronto. Agora falei. Ela me olhou com uma cara de assombro, e não disse nada. Não tinha como responder a sua pergunta simplesmente porque não me lembrava. Minha salvação, ou a da história, foi a chegada de meu pai. Ele tinha ido a um churrasco e depois foi no banco. Sei que ele entrou no quarto e quebrou o gelo no qual toda a situação se encontrava.

– Como ele tá? – perguntou se referindo a mim – Já sei de tudo. Não precisa se preocupar. Saindo do banco encontrei uma amiga, que por acaso é mãe de um amigo dele, o Pedrinho – disse meu pai. – O Zé Eduardo (eu) passou mal, e o Pedro e mais uns amigos o levaram para o hospital e depois o trouxeram para casa. Por isso ele não encontrou a chave do carro. Deve estar com um dos amigos.

– Não pai. Não fui para o hospital. Não lembro, mas se fosse teria alguma marca da injeção da insulina. Olha aqui, – mostrei os dois braços – não há nenhuma marca. Sabia disso porque anos atrás já tinha feito uma incursão ao hospital.

Nunca pensei que o meu pai fosse me salvar numa situação dessas. Ele é a pessoa mais antidrogas e bebidas alcoólicas que conheço. E ele chegou rindo. Esclareceu toda a situação e disse – ele só se acedeu um pouco.

Agora só me faltava descobrir com quem tinha ficado a chave do carro, e de fato o que ocorreu naquela noite. A chave estava com o Pedrinho de fato, que esteve quase tão bêbado quanto eu. O resto não posso contar porque não me lembro.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

 
%d blogueiros gostam disto: