Conversa de Botequim

Uma visão desfocada da realidade do mundo

Profissões

Posted by José Eduardo Coutelle em 7 julho, 2009

Sempre estive ciente da possibilidade de fracassar na vida, de não vingar, ou no mínimo, não suprir as expectativas. Aos 12 anos larguei o futebol. Hoje, percebo que nunca seria um Cristiano Ronaldo. Aos 17, terminei com a minha última banda de rock’n’roll quando percebi que seria impossível me igualar a um Petrucci da vida. E em poucos dias serei um bacharel em jornalismo. Foi olhando para o passado que percebi que falhar é muito mais fácil do que vencer. Partindo desde princípio, defino as profissões que de jeito nenhum seguirei nesta vida.

Cobrador de ônibus intermunicipal

Criei uma rotina diferente neste meu último semestre de faculdade. Devido à necessidade de estar na Unisinos de tarde para uma monitoria, me obriguei a pegar o famoso “pinga” todas as segundas-feiras. Uma viagem que de carro daria 1h, de ônibus universitário 1h 15min, no pinga chega a quase 2h.

Ele parte de Capão da Canoa, no litoral gaúcho, e se desloca até Novo Hamburgo. Vindo sempre embalado, em estradas sinuosas, de mão dupla, e muitas vezes esburacadas, o pingão cumpre a sua missão de largar as pessoas o mais próximo possível do seu alvo. Se a vida do motorista já é complicada, imagine a do cobrador. Trabalhar horas a fio de pé, sendo atirado para todos os lados nas curvas, esbarrando-se nos passageiros, em um ambiente abafado. Este não é um trabalho para qualquer um.

– Para onde vais? – pergunta o cobrador.

– Vou descer na rodoviária nova de Novo Hamburgo – diz a passageira visivelmente nervosa com uma criança de colo aos prantos.

– Minha senhora, este ônibus não passa na rodoviária nova. Daqui a 20 minutos está vindo o ônibus que passa lá – diz o cobrador.

Assim, a moça desce na parada seguinte, visivelmente irritada por ter pego o ônibus errado.

Ainda há os casos dos passageiros sem troco. Pela quarta vez consecutiva na semana, um homem de meia idade diz que só tem 50 reais. Indignado, o cobrador manda ele passar, pois não tem troco.

– Da próxima vez vou dar todo o troco um moedas de um centavo – diz o cobrador indignado.

Toda a espécie de gente passa dentro de um ônibus pinga. Passando pela rodoviária de Gravataí, um inconveniente cidadão (assim o chamarei) entra, e usa o espaço do ônibus para pedir dinheiro.

– Com licença. Com licença. Sou um cidadão desempregado. Tenho 38 anos. Sou HIV positivo. Tenho dois filhos pra criar. Estou pedindo humildemente uma doação espontânea (qual doação não é espontânea?) para poder comprar comida para comer (claro que é para comer).

Assim, ele atravessa todo o ônibus com sua sacolinha de donativos recebidos. E não tem como escapar dele fingindo estar dormindo.

– Amigo – deu três tapinhas no meu braço – Amigo, sou HIV positivo e estou pedindo dinheiro para poder comprar comida para comer – falou baixinho, perto do meu ouvido.

Imagina a situação. Abrir os olhos e dar de cara com um indigente. Não dei nada. Estava sem troco naquele dia.

– Que Deus o abençoe. Que Deus o abençoe – disse para todos que deram a esmola.

Enfim, passamos por Gravataí. E saindo de Gravataí que começa ficar feia a coisa. A RS-118 parece mais um amontoado de buracos do que uma estrada. Agora, o motora tem de frear com tudo para poder parar na parada. E o processo é mais ou menos assim: o ônibus vem quicando sobre os buracos da estrada. Freia e acelera bruscamente toda a vez que tem de pegar ou liberar um passageiro. Sem contar que o acostamento é mil vezes pior que a estrada. Se encontrasse algumas barricadas, juraria que ali tinha se travado uma guerra. É numa viagem assim que se percebe a existência dos ácidos estomacais.

Viajando todos os dias no mesmo horário se começa a conhecer os co-habitantes daquela gigantesca banheira em movimento. A moça toda de branco que sempre desce no Hospital de Pronto Socorro em Gravataí; As duas prostitutas que encerraram seu turno de trabalho e estão indo pra casa.

É nesse balanço intermitente que o cobrador trabalha. Sempre de pé, com seu bloquinho do itinerário nas mãos, e com sua eterna pergunta: “para onde vais?”

Assim, se passaram as minhas duas horas na companhia de nobilíssimas pessoas. Em minutos, eu desço em frente ao portão F, nos fundos da Unisinos, e só encontrarei o aidético, as prostitutas e a enfermeira na semana seguinte.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

 
%d blogueiros gostam disto: