Conversa de Botequim

Uma visão desfocada da realidade do mundo

Bancos da Av. Mauá

Posted by José Eduardo Coutelle em 3 dezembro, 2007

Tenho de escrever uma crônica. Mas também tenho de ir à biblioteca e ir ao banheiro. O professor mal acabou da passar os princípios básicos desse novo estilo de escrita e já exige um primeiro trabalho autoral. Sem pensar mais, pego meus dois livros a serem devolvidos e me desloco em direção à biblioteca. Saio correndo. Não olho para ninguém para não ter de cumprimentar. Meu tempo é curto. Tento pensar em algo legal para escrever, mas nada me vem à cabeça.

Muitos estudantes se encontram ao redor do DCE. Com certeza várias pessoas conhecidas ali também estavam. Contudo não as olho. Apenas me esquivo d’aquele mar de gente. Vou ziguezagueando até chegar à descida que liga o corredor central da Unisinos ao Redondo. Os livros começam a pesar. Afinal de contas, carregava um Norman Mailer e um tal de Capra nas mãos. O Mailer eu não li e o Capra eu retirei para um amigo meu metido a culto. Fala sobre física quântica. Pessoas normais não lêem física quântica.

Dou mais alguns passos e encontro outro grande volume de pessoas, se é assim que elas são medidas. Eram duas filas distintas que se ligavam como o intestino grosso no fino. Com muita força de vontade consegui transcendê-las. Contudo ainda não sabia sobre o que escrever. Talvez sobre uma antiga banda minha ou sobre os tempos em que eu era chamado de Edu e jogava de centro-avante na escolhinha de futebol do América.

Nenhuma idéia boa brotava na minha cabeça. A cada novo passo, mais urina se deslocava para minha bexiga, e uma sensação muito desagradável tomava conta de mim. Passei rapidamente por uma feira que vendia não-sei-lá-o-que no interior do redondo. Não olhei. Estava com pressa. Ainda não sabia sobre o que escrever. Passo pela porta que não é mais automática da biblioteca. Vejo uma negra de cabelo alisado e uma loira extremamente “loira”. Ambas queriam mostrar algo que elas não eram. Nesse caso a originalidade é um fator de muito pouca relevância. Enfim, chego na fila de devolução de livros em dia. Entrego-os a atendente. Ela dá um leve sorriso para mim, e eu respondo igualmente. Era uma moça bonita. Ela passa os livros, o Mailer com dificuldade devido ao tamanho, na maquininha que confere o código de barras e me entrega uma notinha de devolução. Cordialmente agradeço e sigo em direção à saída.

Nenhuma idéia em mente ainda. Começo a me apavorar. A mistura de adrenalina com a pressão abdominal causada pela minha bexiga dilatada me obrigam a reduzir o passo. Felizmente chego vivo ao banheiro. Mais alegre fico quando encontro um box vago. Não consigo mijar em mictório. Aquele monte de pênis balançando ao meu lado me impossibilitam de fazer minhas necessidades. Já refeito, vários gramas mais leve, pego o caminho de retorno para a sala de aula. Chegando lá, enquanto espero o computador ligar, uma luz praticamente divina ditada pelo burburinho dos teclados dos colegas, me diz sobre o que devo escrever. E este seria: quem usa os bancos de concreto construídos ao longo da Av. Mauá, nos fundo da Unisinos.

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Uma resposta to “Bancos da Av. Mauá”

  1. Ô, hein! A Unisinos revelando cronistas. hehehe!

    Parabéns pelo blog.

    Abraço

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